Traduzindo Mulheres

Traduzindo Mulheres – Margaret Atwood

A revista on-line Escamandro publicou ontem (05/12) minha tradução de “Night Poem”, de Margaret Atwood. Mais conhecida por sua prosa (“Alias Grace”, “The Handmaid’s Tale”), Atwood tem uma extensa obra poética, embora pouco conhecida no Brasil.

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Teoria e prática

O monstro da tradução feminista

Nos últimos dias tenho recebido várias mensagens de colegas da profissão que visitaram o blog. Algumas pessoas relataram nunca ter pensado no link entre gênero e tradução. Ao meu ver, isso não é por acaso: atualmente, a tradução feminista possui mais espaço na teoria do que na prática. Porém, talvez mais importante do que isso, é curioso observar que, entre especialistas da tradução, há uma falta de correspondência entre quem afirma apoiar a igualdade de gênero e, entre essas mesmas pessoas, quem se considera uma tradutora ou um tradutor feminista. Na maioria das vezes, quem responde com um “sim” sobre apoiar a igualdade de gênero, responde com um “não” sobre se considerar feminista na sua profissão.

Lembro-me de uma palestra de Nuria Brufau-Alvira, tradutora e acadêmica espanhola, que timidamente discursava sobre esse problema em Israel. Ela dizia que, nos dias de hoje, é muito mais fácil encontrar artigos referentes à tradução feminista do que, de fato, tradutoras e tradutores feministas. Isso porque, a despeito do boom no número de publicações e eventos sobre o tema, a maioria das contribuições continua conectada a abordagens teóricas que apenas um pequeno nicho ao redor do mundo se põe a discutir e aplicar. O resultado é que, embora a tradução seja teoricamente considerada como uma preciosa ferramenta para a igualdade, ela não é abordada como tal nem na academia como um todo, nem no mundo “prático” da tradução. Sendo assim, o mostro da chamada “tradução feminista” continua sendo uma criatura indecifrável e, para usar de eufemismo, olhado (no mínimo) com desconfiança por alguns colegas da profissão. É conveniente, pois, que prefiram deixá-lo na teoria.

Uma vez que a teoria não é compartilhada por um número mais abrangente de pessoas – e, consequentemente, não chega a ser problematizada por quem tem o poder de aplicar estratégias que contribuem à igualdade de gênero –, fica difícil definir o que, de fato, significa ser uma tradutora feminista, e (mais importante do que isso) agir como tal. Pois não se trata apenas de compartilhar um referencial teórico que emergiu nos anos 80/90 e que desde então vem evoluindo das maneiras mais improváveis e felizes possíveis. Obviamente, esse referencial nem mesmo é um corpo homogêneo de autoras e autores que concordam em tudo entre si. Mas a dificuldade que a maioria das pessoas parece ter ao se deparar com o monstro da “tradução feminista” decorre, na verdade, de um ponto basilar: o que mesmo significa feminismo? E o que isso tem a ver com tradução? Melhor deixar como está. Menos risco. A ignorância, assim, acaba atrasando tanto a teoria quanto a prática.

Definir que uma tradutora feminista é aquela que, ao traduzir, contribui para a igualdade, consequentemente parece soar vago demais, obscuro demais, perigoso demais, para quem está de fora, muito embora – ao meu ver – essa seja a elaboração que mais chegue ao ponto da questão. Mas a pergunta que sempre parece ficar no ar para quem a escuta é: parece tudo muito bonito, mas como exatamente fazê-lo? Costumo responder na lata: em primeiro lugar, fazendo precisamente o que você está fazendo agora; trazendo a discussão à tona e ampliando-a para um círculo maior de colegas da profissão, mesmo que você tenha mais questionamentos do que respostas. Como já introduzi nos posts anteriores, isso não é tudo: é possível agir de inúmeras formas e com o suporte de várias estratégias.

Concordo com Brufau-Alvira quando ela afirma que, antes das estratégias, é primeiramente importante analisar quais são as condições em que se trabalha. Perguntar-se, por exemplo, se na empresa em que você trabalha tradutores homens ganham mais do que tradutoras mulheres pode ser início de conversa. Injustiças no bolso tendem a ser uma representação popular e efetiva da desigualdade no mundo do trabalho, e você provavelmente não terá como aplicar técnicas inclusivas num ambiente em que não reconhece a igualdade de salário. Também vale descobrir se a empresa possui uma agenda de gênero, com licenças maternidade (e, em países mais desenvolvidos, também com licenças paternidade). Examinar se as associações em que você está afiliada/o apoiam a tradução feminista, possuem referências ou fóruns especializados no tema é igualmente interessante para se inteirar de discussões.

Depois dessas considerações iniciais, entram as estratégias propriamente ditas, o que significa evidenciar e/ou eliminar do T2 aqueles traços patriarcais que reforçam assimetrias de gênero, optando por uma maneira de se expressar que seja (no mínimo) inclusiva. Digo “no mínimo” pois existem técnicas mais “radicais”, como transferir todo o texto para o gênero feminino como alguns colegas optam por fazer (estratégias mais ou menos intervencionistas, como o “hijacking”). Entender a tradução como uma ferramenta igualitária é focar naquilo que precisa ser traduzido, mas também na maneira como se é traduzido. Como eu disse em outro post, é igualmente fundamental resgatar os trabalhos de escritoras mulheres que por muito tempo foram ignoradas e silenciadas, bem como traduzir textos feministas e textos de traduções feministas vertidos em outras línguas. A colaboração com departamentos de gênero, ONGs e outras comunidades também pode ser valiosa para contribuir com a tradução de um corpus que precisa ser divulgado pelo mundo.

Ao meu ver, todos esses pontos constituem um começo promissor com relação à compreensão do quanto a tradução feminista importa, e o quanto é urgente que nos inteiremos de suas práticas. Isso é, o quanto é importante que o mostro da tradução feminista finalmente se desloque da teoria para a prática. Ainda há bastante espaço de ação: somos ainda apenas um pequeno grupo, e como diz Brufau-Alvira, a maioria das pessoas sequer sabe que existimos (e o que fazemos). É muito conveniente que as coisas tenham sido assim até agora, e que continuem assim ao longo do começo desse século 21. Sabemos que grandes mudanças nunca são realizadas de uma hora para outra, e há incontáveis preconceitos que constituem verdadeiros retrocessos à evolução. Mas como tradutoras e tradutores, não somos invisíveis, nem estamos destinados a ficar debaixo da cama – com e pelas palavras podemos subverter relações de poder que já não se sustentam mais.

Tradução é poder

Mulheres cozinham e homens são viris

Imagine que você está lendo um texto em inglês que possui uma única referência a “cook”. Nas páginas anteriores e posteriores, não há sequer uma dica a respeito do sexo dessa pessoa – seria um cozinheiro ou uma cozinheira? Nesse caso, como traduzir “cook” para o português, por exemplo, que diferentemente do inglês é uma língua que marca o gênero gramatical? É possível que, na sua cabeça, você tenha imediatamente imaginado uma mulher ao ler “cook”?

Traduzir “cook” por “cozinheira” revela a visão de mundo da pessoa que traduz (na L2), e também suas expectativas com relação ao contexto do T1. Ou seja: revela que, para ela, tanto no país de origem (onde se fala inglês, como o Canadá ou a Austrália) quanto no país de chegada (Brasil, Portugal) são as mulheres que supostamente cozinham – ou melhor, que independente do local, “as coisas são assim”. Mas a inferência automática de que o sexo da pessoa que cozinha é feminino e, consequentemente, sua tradução de tal forma, legitima o estereótipo – a conotação de gênero – de que o “lugar da mulher é na cozinha”. E isso é tão retrô quanto a imagem lá em cima.

Como escrevi no post referente ao tigre da Esso, a tradução é um ato político de mediação linguística entre textos e culturas que pode perpetuar ou desafiar estruturas de poder dentro de contextos sociais e culturais mais amplos. Ou seja, a linguagem e as inúmeras estratégias tradutórias podem legitimar ou subverter o status quo. A tradução feminista, de caráter altamente transformador, encaixa-se nessa segunda categoria.

Como elemento de uma luta político-ideológica, a tradução feminista é uma reescrita intervencionista. Ela se fundamenta na premissa de que é pela linguagem que as assimetrias e as desigualdades de gênero se materializam e que, sendo assim, esta deve ser transformada em contraposição à subordinação predominante na sociedade. A dissidência da tradução feminista perante o código patriarcal sempre deriva do questionamento sobre o T1, e a recriação resultante pode se manifestar como desconstrução ou paródia do T1.

É claro que o processo tradutório jamais pode ser neutro e transparente, mesmo quando se assume “fiel”. Não é possível se esconder entre os pontos e as vírgulas. Todo texto traduzido decorre de uma atividade de reescrita, uma vez que o cruzamento entre um contexto e outro implica em uma inevitável releitura. Mas o que diferencia uma tradução qualquer (que se prende às literalidades) de uma tradução feminista é o grau de subversão e de intervenção para reivindicar legitimidade e reconhecimento à mulher. Em outras palavras: é o grau de recusa perante a reprodução de preconceitos/estereótipos/assimetrias, ou ainda, a postura de desafio mediante verdades tidas como definitivas.

Há diversos modos políticos de transgredir as estruturas pela tradução. “Sexizar” e “desneutralizar” a língua constituem medidas intervencionistas que pretendem tornar o feminino visível na língua – ou, nas palavras de Lotbinière-Harwood, “fazer com que as mulheres sejam vistas e ouvidas no mundo real”. Dessa maneira, entre os traços mais frequentes de tradutoras/tradutores feministas, está a adoção da escrita inclusiva (em oposição ao masculino universal – “malestream”), a recusa em importar sexismos e patriarcados, e a prioridade para a tradução de textos escritos por mulheres que foram emudecidas ao longo da história.

Comecei este texto com “cook”, e concluirei com “virile”. O exemplo em questão deriva de um questionamento de uma personagem criada pela escritora québécoise Louky Bersianik (1930-2011). Uma criatura recém-chegada do espaço (chamada L’Euguélionne) fica impressionada com a definição da palavra “virile” em francês. Isso porque, segundo o dicionário Le Petit Robert, “virile” designa qualidades típicas e exclusivas dos homens: “actif, énergique, courageux, etc” (ativo, enérgico, corajoso). L’Euguélionne fica atônita: as mulheres não possuem tais qualidades?

A perplexidade de L’Euguélionne ecoa a perplexidade feminista. Ela aponta para a ideologia subjacente da língua convencional, escancarando-a e retirando-a dos seus espaços solidificados, repletos de teias de aranha. Ela aponta para a necessidade da subversão da língua tanto na escrita quanto na reescrita. Ela aponta, finalmente, para sua revitalização, para a destruição da ideia de que quem cozinha provavelmente é mulher e de que só é viril quem é homem “de verdade”.

Mas esse caminho é longo e, como de praxe, começa nas próprias definições do que significa (supostamente) ser homem e mulher – ou melhor, na recusa em aceitá-las. Fecho o post com um exemplo que, entre milhares de outros, dá vontade de jogar tudo para o alto: o dicionário francês ainda mantém uma infame citação de Malraux para a entrada “femme” (mulher). Ei-la: “Une femme est AUSSI un être humain” (Uma mulher também é um ser humano). E ainda há quem diga que não se deve misturar língua com política.

Tradução é poder

O tigre da Esso e o status quo da tradução

Nos últimos quarenta anos, a área dos Estudos da Tradução foi conectada com a dos estudos de gênero, sendo primeiramente mais fecunda em comunidades anglo-americanas, e atualmente desabrochando ao redor do mundo. Embora a noção de “tradução feminista” (criada nos anos 1990) seja problematizada somente por alguns nichos, o reconhecimento do gênero tem consequências no nível da prática material da tradução, sendo não apenas uma categoria essencial aos “tempos feministas” que vivemos, mas também uma variável que é necessariamente examinada no trabalho diário da tradutora ou do tradutor.

As diferentes conotações de gênero exercem uma influência considerável no processo tradutório e, consequentemente, na maneira como a leitora ou o leitor da língua de chegada (L2) percebe a realidade. Daí a responsabilidade daquela ou daquele que traduz. Fazer referência a gênero não é uma tarefa inocente nem arbitrária, mas um processo complexo que, segundo Louise von Flotow, pode reafirmar a importância das mulheres tanto como indivíduos quanto como grupo.

Nos próximos posts, vou apresentar algumas considerações gerais sobre gênero, língua e tradução, mas por ora vou começar introduzindo um ponto básico: reconhecer o gênero leva em consideração o fato primário de que uma dada palavra na língua específica de partida (L1) pode apresentar o gênero oposto na língua de chegada (L2), refletindo, naturalmente, realidades diferentes. Isso é especialmente relevante quando o sexo da ou do referente está conectado a metáforas ou personificações na L1, implicando em intersecções e diferenças que extrapolam o universo da língua em si e que beiram o universo das percepções ideológicas e estereótipos.

Um simples exemplo retirado de um artigo de 1979 de Hartwig Kalverkämper ajuda a explicar a questão, ao ilustrar como a conotação de gênero pode ter um papel decisivo em textos pragmáticos que dialogam abertamente com referências visuais, como é o caso da publicidade. O exemplo específico advém de uma campanha alemã da Esso traduzido para a língua italiana. O original trazia Pack den Tiger in den Tank que, literalmente, significa “Coloque o tigre no tanque”. Porém, enquanto a palavra “tigre” é masculina na língua alemã (der Tiger), é feminina em italiano (la tigre). O fato das noções de “poder” e “energia” serem supostamente associadas ao gênero masculino e, como tal, “obrigarem” com que a tradução exibisse um equivalente masculino fez com que o animal do slogan fosse substituído de tigre para il leopardo.

Ora, a substituição der Tiger por il leopardo não é baseada na língua em si, mas em ideias estereotipadas de gênero. Como não poderia ser diferente, tais ideias refletem os aspectos ideológicos inerentes ao processo tradutório que, antes de qualquer coisa, compreende um ato deliberado e intencional. O exemplo da Esso mostra como o texto e sua tradutora ou seu tradutor estão envolvidos, e igualmente como o gênero constitui um aspecto cuja importância é significativa tanto para marcar o traço individual de quem traduz (a escolha do vocábulo) quanto para revelar as ideias preconcebidas de uma dada sociedade ou grupo na L2 (o estereótipo de que o masculino está ligado à noção de poder).

A tradução compreende inúmeros parâmetros que, tal como o gênero, podem gerar uma abordagem mais ou menos nuançada do Outro (o desconhecido, a diferença) no texto de chegada (T2). Isso compreende conotações de gênero, mas também considerações históricas, transformações sociais, estereótipos e o status socioeconômico da ou do referente. O processo tradutório é o locus do diálogo com o contexto, mas também pode operar de maneira a influenciar tal contexto, gerando significados novos ao invés de meramente rejeitar os antigos.

Visto sob essa perspectiva, o gênero em uma L1 pode implicar em inúmeros fatores imprevisíveis que forçam a tradutora ou o tradutor a tomar atitudes que atravessam menos as características da L2 do que seus próprios conhecimentos ideológicos e intuições. Sendo assim, o texto de chegada é sempre, e necessariamente, um texto ideologicamente embebido. No próximo post, falarei como isso pode resultar em uma perpetuação das estruturas de poder, ou em uma subversão do status quo, representado pelo tigre – ou leopardo – da Esso.

Aspas

Elisabeta Bartuli

Pessoalmente, quando traduzo acho que estou dando voz e, na maioria das vezes, estou dando voz para quem normalmente não tem. Um pouco por como sou feita, gosto de estar do lado dos perdedores ou das minorias. Não sei, talvez por isso escolhi uma língua menos usada [árabe]. Se não se está atento, danos são feitos. E não falo de danos literários. Arruinamos uma obra-prima, mas não arruinamos somente uma obra-prima, arruinamos a percepção de um mundo inteiro.

Depoimento no documentário Tradurre (2008)

Escrita inclusiva

Linguagem inclusiva na França: conservadores ganham outra vez

“A língua reflete a sociedade e a sua maneira de pensar o mundo”, dizia o Alto Conselho pela Igualdade entre os Homens e as Mulheres (HCEHF, em francês) em um guia publicado em 2015. A tentativa de encorajar a escrita inclusiva (“sem estereótipos sexistas”) por toda a França, no entanto, foi por água abaixo – ridicularizada de “incompreensível”, taxada como um “perigo mortal” e uma “agressão” à sintaxe.

Em setembro de 2017, o lançamento de um manual escolar fez com que a Academia Francesa de Letras – que, diga-se de passagem, é majoritariamente composta por homens (foto) – tomasse uma postura negativa oficial perante à questão, servindo de pano de fundo para personalidades públicas também se manifestarem. Filósofos como Raphaël Enthoven chegaram a publicar inflamadas considerações contra a mudança, justificando que a língua é “uma memória e as palavras são suas cicatrizes”, sendo inútil querer “abolir as injustiças do passado ao suprimir um traço”.

Na língua francesa, assim como no português, a binaridade de gênero obriga a se definir como “ele” ou “ela”, além de privilegiar o termo masculino como neutro genérico e universal. A batalha do HCEHF é de, justamente, devolver espaço ao feminino. Mas por meio de uma declaração oficial difundida por toda a internet em outubro passado, a direção conservadora da Academia manifestou “unanimidade” contra a “aberração inclusiva”. De acordo com seus membros (chamados de “imortais”), a alteração dificultaria o trabalho dos professores e seria danosa aos leitores, comprometendo não apenas a compreensão do “patrimônio escrito” da França como também seria um peso às “gerações futuras”.

O conservadorismo dos “imortais” não é de hoje. Em 2014, a Academia já havia considerado uma “verdadeira barbárie” as formas femininas “professeure, auteure, ingénieure, procureure” (professora, autora, engenheira, procuradora) que, no entanto, já são de uso frequente no francês de Québec. O fato disso já ter sido feito em outra variante da mesma língua é elucidativo. Por isso, é preciso colocar os pingos nos is: o que está verdadeiramente em jogo aqui não é um debate relativo à língua e à linguagem. Não existe uma polêmica real sobre as formas femininas atribuídas para profissões. É uma falácia acreditar que a língua francesa está em risco ao se acrescentar um “e” ou “euse” no final de cada palavra. Não é a língua que é sexista, mas os locutores. O que está em jogo aqui é a velha desigualdade de gênero que se imprime, de diversas maneiras, na sociedade e na cultura.

A atitude refratária da Academia Francesa de Letras é, segundo a historiadora Éliane Viennot, uma “cruzada” de mais de três séculos contra a forma feminina das palavras (“féminisation”), que tem se intensificado nos últimos 30 anos. Não é de se surpreender que os “imortais” da Academia sejam contra a reformulação de uma regra que eles mesmo vêm reiterando desde que alguns gramáticos sexistas do século 17 instauraram em todas as escolas que “o masculino tem mais valor que o feminino”. Ou, ainda, que o “masculino” é mais “nobre“. Sob essa perspectiva, não cabe um equivalente feminino para profissões consideradas de prestígio masculino, como a dos médicos, autores, inventores ou filósofos. Muito melhor manter como está. As mulheres podem se alegrar de ter as formas femininas para “costureira” e “enfermeira”.

Mais uma vez, a misoginia parece ter vencido, a despeito de todos os progressos e urgências linguísticas de uma sociedade em transformação. A despeito, ainda, de todas as evoluções da língua francesa em outros países francófonos, como afirma Viennot. Com declarações “infundadas, reacionárias e sexistas“, os imortais e sua laia revelam sua incompetência ao não fazer uso de suas atribuições oficiais (diz-se: poder) para reagir ao século 21, que conta com mulheres de carne e osso que não aceitam mais a palavra “homem” (no singular) para representar a espécie humana.

A perpetuação da masculinização abusiva da língua francesa pelas autoridades que acreditam ter o seu controle é apenas outro atraso que procura reforçar a falta de legitimidade da mulher ao excluí-la de sua gramática oficial.